Os limites entre a crítica e a maledicência

 A noite de hoje foi marcada por uma discussão existencial, como o título deste post sugere. No entanto, a análise desse campo em que a linguagem tem papel fundamental pode nos ajudar a conferir – ou não – valor ao que falamos e ouvimos pela vida afora.

A crítica, nos primórdios da Filosofia, surge de uma inquietação sobre as origens de um ser ou de um fenômeno. Daí surge a necessidade de problematizar o que se pretende criticar. Em muitas vezes, o resultado da crítica não é um conceito acabado. A crítica ajuda a descobrir origens, aspectos difusos, pontos obscuros do objeto a ser criticado. O objetivo da crítica, entretanto, é claro: dirimir as inquietações.

O equívoco que não raro todos cometemos está justamente no fato de carregar de negatividade a pretensa pureza original do espírito crítico, tão saudável para nossa reflexão cotidiana. Quando vacilamos nesse ponto, estamos a um passo da maledicência. E quero aqui diferenciar contundência com maledicência. Argumentos consolidados – e densos – sempre são contributos importantes para uma boa análise crítica.

Quando tratamos de comportamentos e atitudes humanas, esses limites entre crítica e maledicência ficam ainda mais sensíveis. Quando lembramos que a sociedade tecnológica em que vivemos nos oferece tantos recursos para darmos nossos palpites na vida e nas atitudes alheias, o ato de criticar se torna um tanto mais delicado quanto desafiador.

A discussão que tive hoje com os amigos me fez lembrar o conselho evangélico presente em Mateus 18, 15-17:  “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganhado teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano”.

Não é fácil, de fato. Mas é caminhando que se faz o caminho.

* Ao som de: Condor, Oswaldo Montenegro

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