Tem dias em que a gente se sente ainda mais impotente diante do mundo e das pessoas que nos cercam. A sensação que ecoa no peito é amarga, áspera, nada palatável. Nossas disposições parecem se esvair com o vento. Nossas convicções parecem sucumbir à potência dos fatos – e das versões que a eles são dadas. Fica a impressão de que a névoa tomou conta do caminho. Perdemos o norte.
Assim tenho me sentido nos últimos dias ao ler jornais ou assistir à televisão. De um lado, comentários múltiplos – e para diversos gostos, dos mais severos ao puro achaque – sobre as declarações do papa Bento XVI na África. De outro, alguns artigos ainda na rabeira do assunto “aborto de Alagoinha” desferindo os últimos golpes na já nocauteada imagem do Arcebispo de Olinda e Recife. Por fim, as denúncias de pedofilia em uma escola confessional católica de Marília (SP) envolvendo o diretor da escola, membro de uma congregação religiosa.
Desse caldo de assuntos – mais apetitoso aos críticos do que aos defensores – surgem questionamentos, inquietações, possibilidades de reflexão. Será assim tão errado defender o respeito à dignidade das pessoas em detrimento da liberalidade sexual ou da lucratividade do universo de consumo? Abstinência, continência e limite já seriam letras mortas no vocabulário pós-moderno? Qual é o limite entre a reta intenção e o interesse privado? Não estariam alguns promovendo uma vingança velada, acusando as instituições de subversivas e querendo repetir os erros da fogueira inquisitória de séculos passados? Não é hora de estancar o sangramento dos escândalos na vida das comunidades religiosas? Até que ponto não seria meritório o ato de reconhecer, de uma vez por todas, que o meio religioso sofre as mesmas mazelas da sociedade? Não é hora de assumir de forma definitiva a afirmativa de que “as alegrias e esperanças, os sofrimentos e tristezas do mundo são as alegrias e esperanças, os sofrimentos e tristezas da Igreja” (Constituição Apostólica Gaudim et Spes, 1965)?
Mantenho firme aqui o já publiquei sobre o direito de opinião. Ele é um sagrado instrumento democrático e deve ser respeitado. Ainda mais como cristão, que acredito no projeto de um galileu que, no amor, ensinou a beleza de se viver libertado dos grilhões do egoísmos, das amarras da individualidade. Um jovem nazareno que demonstrou a satisfação que existe em pensar e viver para promover a vida de todos, especialmente de quem mais sofre. Isso se chama fé na liberdade.
Estou aprendendo a acreditar mais em Deus. Estou começando a perceber que a impotência diante do mundo é inerente ao ser humano. Mas a impotência diante do próximo é sinal de desânimo com a beleza da vida. Assim canta Jorge Aragão:
“Deus manda, Deus manda
Na hora em que mais se precisa
A luz pra acender minha alma
A cura da dor num lampejo
Todo o perdão que me salva
Olhos pra quando eu não vejo
Se eu me sinto sozinho
Ele vem em segredo
E me faz passarinho
Pra que eu não mais tenha medo
Foi na vontade de ver a mão divina tocar
No meu tormento, o sofrimento estancar
Que vim mudar meu querer, a fé não mais vacilar
E descobri o bem que tem em recomeçar”.
Escrito por Felipe